Edição 2022 de 6 a 12 de abril de 2014
Edi­to­ri­al
É falso sugerir que ditadura foi uma criação apenas dos militares
Fica-se com a impressão de que o golpe de 1964 e a ditadura foram construções apenas dos militares. Mas é um mito. Os civis, inclusive donos de jornais, foram decisivos para derrubar o presidente João Goulart e no apoio aos governos de todos os generais-presidentes
“1964: A Conquista do Estado”, de René Armand Dreifuss, e “Cães de Guarda”, de Beatriz Kushnir, são fundamentais para se compreender as relações entre civis e militares no golpe e na ditadura. O segundo livro mostra como a imprensa apoiou o governo discri

Vamos combinar assim: ninguém apoiou a ditadura, talvez nem os militares, e, deste modo, tudo fica muito bem. Todos ficam felizes e o Brasil varonil segue adiante, às vezes deitado em berço esplêndido — isto se o berço não for assaltado. No Bananão, como Ivan Lessa chamava o país de Paulo Maluf e José Sarney, rouba-se até a história. Nos jornais, ao menos em alguns deles, fica-se com a impressão de que (quase) todos combateram o regime civil-militar. Mais: há uma tentativa — solerte, diriam os conservadores — de se retirar o elemento civil e, portanto, a ditadura seria apenas “militar”. Historiadores gabaritados, como Daniel Aarão Reis Filho e Carlos Fico, para citar apenas dois, preferem o uso de golpe civil-militar e ditadura civil-militar. Porque, admitem, o golpe e a ditadura foram civis e militares.

Civis e militares se irmanaram para derrubar o presidente João Goulart e sabiam — ninguém, no meio político, tem o direito de ser ingênuo — que se caminhava para uma ditadura. Um livro clássico, “1964: A Conquista do Estado — Ação Política, Poder e Golpe de Classe” (Vozes, 814 páginas, tradução de Ayeska Branca, Ceres Ribeiro, Else Ribeiro e Glória de Mello), do doutor uruguaio René Armand Dreifuss, documentou, com rigor, a articulação civil e militar, numa conexão irrestrita, para depor Jango. Pode-se dizer, até, que foram os civis que “agenciaram” o golpe que os militares levaram a termo.

A vivandeira-mor Carlos Lacerda, um dos políticos mais nefastos da história brasileira e um golpista nato — porta-voz da “república da citação”, da cultura bacharelesca, filosoficamente inconsistente, quando filtrada —, conspirou abertamente contra a democracia desde o governo do presidente Getúlio Vargas. Lacerda escrevia de olho nos leitores privilegiados dos quartéis, especialmente coronéis e generais, e com o objetivo de derrubar algum presidente constitucionalmente eleito. Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, conspirava contra o governo de Jango até quando dormia e sonhava. Frequentava os quarteis, como vivandeira-banqueiro, sempre pedindo a mesma coisa: a derrubada do presidente da República. Até políticos mais equilibrados, como Bilac Pinto, beiravam os quartéis, adulando militares graduados. Na ponta da língua sempre o mesmo pedido, quase exigência: “Deem-nos um golpe!” Até civis americanos, como o embaixador Lincoln Gordon, comportavam-se como vivandeiras. “Um golpe, por favor!”, pedia Gordon, com o apoio de John Kennedy e, depois, de Lyndon Johnson, o sucessor.

Os militares escutavam e, claro, conspiravam animadamente — casos dos generais Castello Branco, Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, a dita Sorbonne, com o apoio de outros generais, como Luiz Carlos Guedes, Olympio Mourão Filho (o Vaca Fardada) e Odílio Denys. Entretanto, sem as vivandeiras, como Lacerda e Magalhães, teriam tentado o golpe sozinhos? Talvez sim. Talvez não. Mais provável que não. Os civis, como Lacerda, de certa maneira deram consistência e, ao mesmo tempo, justificativa para o golpe de 64. Com sua pena ferina, uma mistura de romantismo, parnasianismo e realismo rastaquera, Lacerda contribuiu para que a sociedade quisesse, apoiasse e aceitasse o golpe. O governador da Guanabara e articulista de jornal — talvez nunca tenha sido jornalista, pois parecia não acreditar na exposição e, sim, na fabricação do fato — tornou a ideia do golpe palatável. Lacerda era, em 1964, uma espécie de oxigênio da classe média moralista e conservadora. Era sua voz histérica e histriônica.

Se Lacerda era o lodo da imprensa, pregando o golpe militar como se fosse uma “obra” de saneamento básico contra a corrupção, alguns jornais, como “O Estado de S. Paulo”, “O Globo” e a “Folha de S. Paulo”, torciam abertamente pela queda de Jango. Torciam é pouco. Pediam, até exigiam, que os militares arrancassem o presidente do Palácio do Planalto. “Basta!” — dizia o poderoso “Correio da Manhã” em editoriais escritos por jornalistas e escritores do naipe de Carlos Heitor Cony Otto Maria Carpeaux. “Fora!” — gritavam outros jornais. Se um psiquiatra examinar os principais jornais patropis, notadamente entre janeiro e abril de 1964, certamente vai diagnosticar certa histeria aguda travestida de crítica. Mas uma histeria, digamos, pragmática.

Uma acadêmica do balacobaco, Beatriz Kushnir, não teve receio algum de expor as entranhas e patranhas da imprensa sob a ditadura. “Cães de Guarda — Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988” (Boitempo Editorial, 408 páginas), escrito pela doutora em história social pela prestigiosa Universidade de Campinas (Unicamp), entrou para o índex de alguns jornais. Não há nenhuma determinação escrita do tipo: “Este livro não pode ser resenhado”. Mas os jornalistas sabem que não é de bom tom nem mesmo dizer que o livro foi escrito e publicado. É um livro para ser esquecido. Sobretudo agora, quando a “Folha de S. Paulo” e “O Globo” garantem que erraram ao apoiar o golpe e a ditadura, não fica bem ler e comentar este livro maldito.

Há um certo folclore quando se trata do comportamento da imprensa na ditadura, há, até, uma memória heroica, muito bem construída, para sugerir que houve uma luta ferrenha contra as ações brutais da ditadura. Não custa lembrar o que o general Ernesto Geisel, o presidente que acabou com a censura e o AI-5, revelou: “Recebi no palácio todos os donos de órgãos de comunicação. Nenhum me pediu o fim da censura”. A imprensa mais apoiou do que combateu a ditadura. A economia do país crescia, “milagrosamente”, e os jornais cresciam junto. Havia, portanto, uma identidade sólida entre a ditadura e os grupos de comunicação. Fica-se com a impressão que, com suas receitas de bolo, o “Estadão” foi uma grande rebelde. Não foi. A rebeldia da “Veja” era menor do que costumam sugerir alguns de seus ex-editores. “O Globo” e a Rede Globo de Televisão eram quase porta-vozes do regime.

O grupo Folha da Manhã apoiava a ditadura com seus dois jornais, a “Folha de S. Paulo” e a “Folha da Tarde”. A “Folha de S. Paulo” parece dividir sua história em a.d. e d.d., ou seja, antes da Diretas Já e depois das Diretas Já, esquecendo, não inteiramente, parte de seus passado pouco lisonjeiro. A “Folha da Tarde”, durante certo momento, teve sua redação controlada por jornalistas-policiais ou policiais-jornalistas. Chegaram a chamá-la de “Diário Oficial da Oban”. A “FT” publicava reportagens distorcidas sobre as mortes de militantes da esquerda.

O leitor por certo lembra-se do bordão “Vai que é sua, Taffarel!”, do locutor esportivo Galvão Bueno. Sobre a ditadura, pode-se dizer que os civis estão querendo passar a bola exclusivamente para os militares — “Pega que é sua, general!” Mas a ditadura patropi foi mesmo civil-militar, num colaboracionismo que durou 21 anos. O planejamento econômico (além da política fazendária) foi todo elaborado por “gênios” civis como Roberto Campos, Delfim Netto e Mario Henrique Simonsen. Nesse campo, o trio pintava e bordava. O arcabouço institucional — a elaboração jurídica — formulado pelo governo foi criado e implementado por civis, não raro contidos pelos militares, que avaliavam seus projetos como excessivamente reacionários. Aos poucos, estudiosos sérios, como Carlos Fico, Daniel Aarão Reis Filho, Denise Rollemberg, Elio Gaspari, Jorge Ferreira, Marco Antônio Villa, vão mostrando o imbricamento visceral entre civis e militares tanto no golpe de 64 quanto na ditadura.

Se os acadêmicos começam a mostrar como os civis foram influentes na ditadura, e não com o objetivo de retirar o caráter militar do regime, e sim de ampliar o entendimento de como funcionava, há os que preferem reforçar o aspecto militarista da ditadura com o objetivo óbvio de piorar sua imagem. “Arrancar” os civis, posicionando a ditadura quase que exclusivamente como militar, é uma forma de sugerir que foi mais cruenta. Acadêmicos, como Denise Rollemberg, Daniel Aarão Reis e Marco Antônio Villa, começam a mostrar que o projeto da esquerda, de parte dela, nada tinha de democrático. Direita e esquerda irmanavam-se: as duas queriam o golpe, de diferentes modos, mas nenhuma era de fato democrática. Elas “namoravam” a ditadura.

A ditadura, se depender de certos nichos, alguns encastelados nos jornais, vai se tornar cada vez mais militar e menos civil-militar. Trata-se de uma contrafação. O golpe e a ditadura são tanto dos civis quanto dos militares. 


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