Edição 2008 de 29 de dezembro de 2013 a 4 de janeiro de 2014
Entrevista | Olavo Noleto
“O PT tem história e não aceita ser tratado com mão batendo na mesa”
O goiano de maior projeção do governo de Dilma Rousseff reage às declarações recentes do pré-candidato Júnior Friboi e garante: a oposição vai ganhar as eleições em Goiás
Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Olavo Noleto é o petista de Goiás com maior ascendência no Palácio do Planalto e está em Brasília a serviço da União, desde que seu partido assumiu o poder, há 11 anos. Como subchefe de Assuntos Federativos, nos últimos anos tem sido o braço direito da ministra Ideli Salvatti, da Secretaria de Relações Institucionais. É ele o responsável por sentar à mesa com prefeitos e governadores de todo o País para discutir e viabilizar projetos para cada localidade.

Uma função que desempenha com espírito republicano. “Tenho orgulho de ajudar um prefeito e de ele sair da minha sala sem eu ter conhecimento de qual é seu partido”, diz Olavo. Seu jeito de ver a política e o temperamento naturalmente agregador colaboram para o sucesso — e a consequente permanência — no cargo.

E é a partir de seu perfil e da responsabilidade com o projeto do governo federal que ele analisa o quadro eleitoral em Goiás. Em um momento em que o PMDB já tem seu pré-candidato oficial, Júnior Friboi, e no qual o PT não esconde certa insatisfação com a escolha, ele diz: “Quem é muito precipitado pode cansar antes da hora; então, minha recomendação é calma, paciência, conversa e respeito. Nada de faca no pescoço ou bater a mão na mesa.”

A recomendação serve para parte de seu partido, que quer firmar o nome do prefeito de Anápolis, Antônio Gomide, como pré-candidato ao governo, mas principalmente em resposta a Friboi, que disse, em entrevista ao Jornal Opção, que o PMDB pode até mesmo não apoiar Dilma Rousseff à reeleição, caso a aliança com o PT não se confirme no Estado. “Eu sou um dos que jogam água na fogueira, por isso acredito em um acordo bom para ambos os lados”, diz Olavo.

Há quase dois anos e meio, também em entrevista ao jornal e antes do caso Cachoeira, Olavo Noleto já garantia que Paulo Garcia seria eleito prefeito de Goiânia. Agora, pede para anotar mais duas previsões: a de que a oposição vencerá as eleições no Estado, assim como o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), será eleito governador de São Paulo. A conferir em outubro.

Euler de França Belém — É complicado falar de eleições nove meses antes delas. Muita coisa pode mudar, mas, no momento, Dilma Rousseff (PT) está em 1º nas pesquisas, com possibilidade de ganhar no primeiro turno. Mas tem um candidato novo, Eduardo Campos (PSB), que teria Marina Silva (PSB) de vice ou ao contrário, e Aécio Neves (PSDB), que nunca pode ser subestimado. Obviamente ainda existem as campanhas, que podem mudar esse cenário, mas como o sr. vê a situação até agora?
Primeiro nós temos de avaliar que o Brasil está bem. Se você olha para o resto do mundo, verá vários países em crise e o Brasil está longe disso. Mas aí há pessoas que querem passar um humor pesado, criar uma situação que não existe. Podemos comparar com a depressão: é uma doença psicológica, não tem sintomas físicos. O Brasil está bem, mas nossa elite quer insistir em falar que estamos mal, porque é aí que ela lucra. A crise é oportunidade para a elite e os bancos ganharem dinheiro. O ano de 2013 foi bom, a safra foi boa, não tem nada que comprometa a economia para o próximo ano, vivemos um mercado bom de emprego. Então, a primeiro coisa que temos de analisar é que o Brasil está bem, porque se houvesse algum dado que mostrasse ao contrário, a análise do quadro eleitoral seria mais complicada. Mas o País está bem, as pessoas estão comprando, estão confiantes, e isso é fundamental.

A discussão eleitoral ainda não chegou à população. As eleições não estão em pauta para a população em geral e isso só vai acontecer após a Copa do Mundo. Janeiro e fevereiro vão ser uma época morta para a política; depois vem o carnaval em março e logo após vem o clima da Copa. Só depois disso tudo as eleições vão pautar a vida das pessoas. Aí será o momento de defender o nosso governo, da oposição bater em nós, porque ela precisa se construir e se colocar na mesa como opção.

Não adianta querermos jogar o jogo político sabendo que a população não vai assisti-lo, que ela está preocupada com outra coisa. Sabendo disso, vamos comparar com a Fórmula 1: estamos ganhando a corrida com 10 segundos de vantagem. Se estivessem faltando cinco voltas para terminar, a vantagem seria enorme, mas se faltarem 30 voltas isso não é quase nada. No meu ponto de vista, estamos vencendo com 10 segundos, mas ainda falta metade da prova, então pode acontecer tudo. Agora, para nós que conhecemos o mundo da política, não tem nada no cenário até agora que aponte uma grande preocupação. Mas nós sabemos que nada vai ser fácil, porque hoje enfrentamos muita coisa para conseguir colocar nosso projeto de governo em ação. Não teve uma eleição fácil, porque estamos falando de projetos grandiosos de poder que se confrontam.

Euler de França Belém — E quem é o grande rival, em sua opinião?
Com certeza é o PSDB, porque são projetos realmente confrontantes, que se diferenciam cada dia mais. Não dá para pensar diferente, o adversário é o PSDB.

Elder Dias — Passando agora para o cenário da política estadual. O PT nunca teve um cenário em Goiás tão favorável para assumir o governo. Essa análise é feita sob dois pontos: há um vácuo e uma necessidade do novo, e essa necessidade é representada de duas maneiras: ou um nome novo ou uma nova forma de gestor, que aparentemente é a preferida da população. O PT nacional tem um acordo fechado com o PMDB e em Goiás o PMDB vai lançar candidato. Uma ala do PT não concorda com a pré-candidatura de Júnior Friboi e praticamente lançou Antônio Gomide como pré-candidato do partido. Como fica o PT nacional em relação a isso? E o sr., concorda que é o melhor ambiente para o PT assumir o governo do Estado?
Primeiramente, eu também vejo que o PT nunca teve uma chance tão real de lançar um próprio candidato a governador em Goiás e ganhar. Aliás, para a oposição como um todo eu acredito que há um ambiente muito favorável e que vamos, sim, ganhar as eleições. Nós vamos derrotar o PSDB em Goiás. O PT não vai desistir de marchar junto com o PMDB, não vai haver essa disputa. Nós va­mos costurar um acordo, entrar em con­senso. Nós temos de casar para ganhar as eleições em Goiás e se tiver alguém puxando contra isso está errado. E que eu saiba, conversando com os líderes nacionais, não existe acordo nem in­ter­ferência, o que existe é uma torcida para que ambos os partidos te­nham maturidade e discutam a união para ganhar as eleições no Estado.

Elder Dias — Isso significa uma aliança já no primeiro turno?
Por que não? Eu acredito que esse é o caminho mais certo para ganhar as eleições aqui em Goiás.

Euler de França Belém — O sr. acredita que já podem ganhar no primeiro turno?
Sim. Aliás, eu acho que, se nos unirmos, a eleição vira de primeiro turno. E acho que temos chances reais de vencer. Este é um momento em que os lutadores estão se reafirmando, aquecendo, mostrando força... faz parte. O PT tem grandes vencedores, vai apresentá-los e tentar fazer com que eles disputem as eleições, isso é algo natural no processo. É natural que o PMDB faça a mesma coisa, é legítimo. Mas, quando um ator ou outro começa a cair na cilada de ficar trocando farpas, isso vai nos enfraquecendo e nos dividindo, não temos de cair nisso. Quando um colega fala demais, não podemos bater nele. Temos é de pedir calma.

Murilo Nascente Santana — Júnior Friboi esteve no Jornal Opção e disse que, se o PT lançar outro candidato ao governo de Goiás, pode ser que o PMDB no Estado retire seu apoio ao PT nacional, em relação à reeleição da presidente Dilma. Como petista, como o sr. vê essa declaração?
Eu acho que está errado. Você não chama uma noiva para casar a ameaçando. Está errado, mas isso é experiência, se adquire com o caminhar na política. Eu acho que ele ainda vai encontrar a sua maneira de caminhar, seu jeito de agregar as pessoas. Ele pode ser ou não o candidato, mas, se ele quiser ser, terá de começar a tratar melhor a noiva.

Euler de França Belém — E por que ele não pode ser a noiva?
Essa é uma resposta que eu gostaria de ter.

Elder Dias — E Friboi tem o perfil para ser a noiva?
É o PMDB ou o PT quem tem de ser a noiva. Para nós é uma questão de projeto, de partidos e não de personagens. Ele precisa entender isso. O PT é um partido grande, que tem história no País. O PT não aceita ser tratado com mão batendo na mesa, assim como o PMDB também não aceita. É uma construção, um diálogo permanente e paciente, porque o rio é caudaloso e tem muita água para correr ainda até a tomada das decisões.
Quem é muito precipitado pode cansar antes da hora; então, minha recomendação é calma, paciência, conversa e respeito. Nada de faca no pescoço ou bater a mão na mesa. Isso não adianta com ninguém, todos nós já somos experientes o suficiente na política para saber disso.

Euler de França Belém — O PMDB pode ter essa paciência, porque os dois pré-candidatos do partido não precisam se desincompatibilizar. Já o PT, não, porque os dois melhores nomes, Antônio Gomide e Paulo Garcia, estão em mandato e precisam sair até março.
Mas na política, o tempo daqui até março parecem dois anos. Tem muito tempo ainda e nós vamos construir os acordos possíveis e necessários, eu acredito que nós vamos fechar e caminhar juntos. É a melhor estratégia, sem dúvida, mas agora nesse nosso meio tem gente que joga gasolina e têm outros que jogam água na fogueira. Eu sou um dos que jogam água, por isso acredito em um acordo bom para ambos os lados.

Cezar Santos — Existe também uma possibilidade de uma chapa pura do PT. O sr. acredita nessa possibilidade? E representaria uma condição mínima de eleição dos possíveis candidatos?
Pode acontecer, como já aconteceu, mas não é isso vamos buscar. Não é para isso que trabalhamos. A gente aprendeu que no Brasil nós temos de fazer alianças para vencer essas disputas, porque a gente não tem os votos necessários na sociedade para ganhar tudo sozinho. Gostaríamos de ter, mas não é assim. E precisamos reconhecer isso, ter paciência, fazer alianças, respeitar o voto das pessoas. Se elas escolhessem a gente com 50% mais um, talvez a gente também lançasse uma chapa pura, mas não é essa a realidade.

Elder Dias — Mas a questão é a seguinte: o que Júnior Friboi falou representa o que muitos pensam dentro no PMDB. Baseado nisso, o sr. acha que seria possível sair o PT como cabeça de chapa e o PMDB na vice?
É possível sim, acredito na possibilidade. Tudo é possível e acredito que o PT tem bons nomes e legitimidade para ser cabeça de chapa, mas a questão é que eu não vou fazer bravata. Como agente político facilitador, alguém que tenta agregar, ajudar e jogar água na fervura, eu não vou ficar batendo na mesa dizendo que o candidato tem de ser do PT. E acho que ninguém deve se portar assim.

Elder Dias — Se o PT vencer as eleições com o PMDB na vice, no ponto de vista dos peemedebistas de Goiás, ficaria tudo com seu partido: a presidente é do PT, o governador seria do PT e o prefeito da capital, também. Supondo que o governador eleito fosse o Antônio Gomide, a prefeitura de Anápolis também continuaria com o PT [o vice-prefeito, João Gomes, também é petista]. Como convencer, então, um peemedebista?
E qual o problema? As pessoas votaram no PT sabendo disso. Em São Paulo, se Alexandre Padilha vencer, vai ficar da mesma maneira: presidente da República, governador e prefeito, que é Fernando Haddad. Isso é da democracia, a população votou e escolheu.

Quanto à questão do PMDB em Goiás, não é isso que vai convencê-los ou desconvencê-los a nos apoiar. A questão é a seguinte: nós estamos no mesmo barco e, independentemente de quem for o candidato, temos de ter um acordo político e estratégico para ganhar o governo de Goiás. Os pontos em questão devem ser: qual o conteúdo desse acordo e qual o projeto de Estado? Qual será o tamanho dos partidos nele? Todos vão ser respeitados? 

Outra pergunta que deve ficar em mente é: nós vamos ganhar o governo para quê? Para mudar setores estratégicos no Estado, que nós acreditamos que precisam ser revistos. E a terceira questão é que, para ganhar, nós precisamos construir um candidato e uma candidatura que agregue todos — a não ser que a estratégia decidida seja sair separados mesmo, o que pode ocorrer. Mas, saindo juntos ou separados, não pode ser porque estamos brigando, tem de ser uma estratégia.

Elder Dias — E há um nome realmente agregador? Por exemplo, Iris Rezende (PMDB) é um nome que agradaria boa parte do PT, enquanto Júnior Friboi, não.
Se eu falar em nomes agora, eu não ajudo. Tenho de falar em política, procedimentos, comportamento. Promover a paz, dizer que todos são bonitos e que quero todos juntos...

Euler de França Belém — Iris está no páreo ainda?
Eu acho que sim, ele é um ator histórico, de força política, as pesquisas mostram sua densidade e uma renovação da sua imagem. Mas quem sou eu para interferir nas decisões do PMDB? Vamos deixar o rio correr.

Euler de França Belém — Falam que Olavo Noleto é o mais peemedebista dos petistas...
Sério? (risos) não sabia. É bom, sinal de que eu dialogo bem com eles então.

Cezar Santos — E o sr. tem vontade de ter mandato? E seria deputado federal?
Eu quero, sim, só não sei se vai ser agora ou em outro momento. Estamos discutindo essa possibilidade ainda, mas, se eu sair candidato, será a deputado federal mesmo.

Euler de França Belém — Já ouvi falar muito que o sr. está trabalhando demais no interior. Está o dia inteiro andando pelas cidades, em plena pré-campanha...
Eu realmente estou andando muito, seguindo a agenda institucional, apesar de fazê-la com meu carro e minha gasolina para não ter qualquer questionamento sobre utilização de patrimônio público. Em 99% das vezes estou seguindo as agendas institucionais, mas eu realmente sou um apaixonado, ando mesmo, gosto de fazer política 24 horas. E acredito que é a política a ferramenta de mudança da sociedade. Faço muito e com muita paixão, e estou sendo recebido com muito carinho. É o resultado de um trabalho de muitos anos.
Mas eu vou ter de esperar o momento certo, estamos conversando internamente com meu grupo no PT. Lá em Brasília eu preciso conversar com a ministra Ideli (Salvatti, secretaria de Relações Institucionais) e com a presidente Dilma. Então, são processos que estão se consolidando ainda. De qualquer maneira, se não houver movimentação agora, não adianta tomar uma decisão. Tenho de crescer agora, me tornar viável e só então tomar a decisão correta de sair candidato ou não.

Elder Dias — Mas é uma candidatura já com vantagens, porque o sr. lida com muitos prefeitos diariamente. Com quantos prefeitos de Goiás o sr. conversou neste ano?
Pessoalmente, com cerca de 180. Não tenho a conta exata, mas é por aí. Mas eu falo para você seriamente e tenho o testemunho deles: nunca nenhum prefeito entrou na minha sala e foi perguntado sobre questão eleitoral. Nunca. Eu sempre procurei proteger a instituição Presidência da República. Depois de 11 anos estou colhendo os frutos disso, de ajudar um prefeito e de ele sair da minha sala sem eu ter conhecimento sobre qual é o partido a que ele pertence. Tenho orgulho disso. Precisamos mudar a política brasileira, fortalecer e renovar as instituições, e acho que eu colho isso. Se isso depois vai virar apoio eleitoral, eu não sei e está muito longe, eu separo muito bem as duas questões. Sei que entre o carinho e o apoio eleitoral tem uma distância muito grande. Eu, sendo candidato, sei que vai ser uma corrida difícil, que os atuais deputados federais têm força e viabilidade, mas acredito que eu tenho história, reconhecimento e legitimidade para ser um candidato e correr atrás do apoio necessário. Esse carinho eu sinto, e acho que a história pode ficar bonita.

Euler de França Belém — Desse grupo do PT do qual o sr. faz parte [Movimento Cerrado], um dos problemas é que já há uma deputada federal, que agora vai voltar à suplência, Marina Sant’Anna. Ela já comentou alguma coisa com o sr. sobre essa questão?
Marina é quase minha irmã. Se ela decidir ser candidata, terá meu apoio. Na nossa conversa interna, ela já falou da sua predisposição a ser candidata ao Senado, mas isso não se coloca agora, porque pode soar como o PT abrindo mão do candidato a governador. Então, ela está sendo cuidadosa, não está colocando essa questão em primeiro plano. Agora, esse é um caminho que ela gostaria e nosso grupo, também. Na hora certa vamos discutir essa possibilidade independente de qual engenharia eleitoral tenha sido decidida.

Mas isso não é um elemento que vai decidir se ela é candidata ou não. Ela vai caminhar no rumo da Senatoria, sendo viável ou não a presença na chapa majoritária. Isso é um fator que, para minha decisão de sair candidato ou não, vai contar muito positivamente. Mas é uma construção minha, dela, do professor Pedro Wilson, do grupo todo, dos prefeitos com que dialogamos mais de perto, como Paulo Garcia e Maguito Vilela (PMDB), de Aparecida de Goiânia. É uma discussão que na hora certa eu quero fazer com muita lealdade.

Para se dar o segundo passo na discussão, tem de haver também uma conversa com a presidente Dilma e com a ministra Ideli. Porque eu cheguei até aqui sendo muito leal e transparente nas relações e não posso mudar agora.

Elder Dias — E elas já sabem da sua predisposição à candidatura?
A ministra Ideli já sabe sobre essa possibilidade. Com a presidente ainda não conversei, não sei se ela sabe ou não. Nossa corrida no dia a dia é tão forte que não tivemos a oportunidade de nos encontrarmos ainda. Mas, na primeira oportunidade, vou pautá-la com essa possibilidade.

Elder Dias — E qual foi a reação da ministra?
A ministra disse que sabia que esse momento chegaria, que uma hora eu iria me candidatar, e me deu total apoio.

Cezar Santos — Mudando o foco, o sr. considera que os seus amigos e companheiros de partido Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoíno são presos políticos?
Se for para se fazer um resumo sintético, sim. Mas acredito que esse debate não pode ser resumido assim. O processo de julgamento da Ação Penal 470, do ponto de vista jurídico, vários juristas questionaram e disseram que é um ponto fora da curva. Do ponto de vista político, eu queria ver o mundo jurídico tratar igualmente questões que tenham o mesmo clamor social. Por exemplo, queria vê-los tratarem o caso dos trens de São Paulo ou o chamado “mensalão mineiro” com a mesma ferocidade. Não houve uma cobertura nacional da imprensa nem de um terço do que foi o mensalão mineiro e, por isso, o mundo jurídico não o tratou da maneira que deveria ter tratado esses outros casos.

“A imprensa foi vendida no caso do mensalão”

Euler de França Belém — É bom ressaltar que o caso mineiro ocorreu antes do mensalão nacional.
E por que não foi julgado? E olha que existem bodes expiatórios, porque tem gente que é inocente ali. Que julguem e não condenem os inocentes. Mas no caso do mensalão, tem laudo técnico que prova que não havia dinheiro público no Visa. Carimbaram de mensalão o ato de pagar deputado para votar com o governo, e isso é mentira! (enfático) Onde existe isso no processo? Onde ficou provado? É mentira. Tem “forçadas de barra” sobre as quais não adianta ficar brigando com a opinião pública, porque perdemos.

Agora, daí a gente ser obrigado a dizer que isso está correto? Eu não me submeto a isso. Está errado e foi errado. O processo jurídico está errado do ponto de vista político, foi oportunista. A imprensa foi vendida, interesses econômicos foram contrariados e o que estava em jogo era disputa de poder. Faz parte, nós continuamos jogando o jogo, disputando e sonhando.

Cezar Santos — Claramente, seu partido está fazendo um trabalho de desqualificar o STF [Supremo Tribunal Federal]. O que o sr. acha disso?
Eu acho que é o próprio STF que está fazendo o trabalho de se desqualificar.

Cezar Santos — Então caberia ao partido que detém o poder central fazer um trabalho para fortalecer a entidade, e não desqualificá-la.
Nós vivemos em uma democracia, a instituição STF vai ser respeitada. Mas nós temos direito a opinião e a fazer críticas; se não tivermos isso, o mundo vai acabar. Aliás, o problema é que a gente não tem o direito nem a opinião, porque se estabeleceu uma verdade que foi consolidada e quem falar diferente dessa verdade é bandido. Isso não é democrático.

Elder Dias — Então o peso da mídia foi fundamental para o julgamento?
A comunicação no Brasil, como em qualquer parte do mundo, tem uma lógica empresarial. O problema é que aqui existe uma concentração comunicacional, um oligopólio. Esse oligopólio não gosta da gente, nós o contrariamos há muito tempo. Então, nos momentos de guerra, o oligopólio assume um lado.

Quando a gente tenta discutir a radicalização da liberdade de imprensa, os mecanismos de autocontrole sobre determinado tema, isso é chamado de golpe ou censura, de chavismo. Se um profissional jornalista escreve ou fala algo que contraria o interesse do dono da empresa ele é demitido na hora. Qual é a liberdade de imprensa que existe? Estou pronto para fazer esse debate, sou filho de jornalista, meu pai ajudou a escrever o código de ética do jornalista.

A radicalização da liberdade de imprensa é um assunto que a democracia brasileira precisa debater. Juntamente a isso, precisamos discutir também o oligopólio que controla os meios de comunicação no Brasil.

Euler de França Belém — E o que dizer sobre Vanderlan Cardoso (PSB)? Ele foi fundamental para que houvesse o segundo turno nas últimas eleições. Agora ele diz que vai ser candidato de qualquer maneira...
Primeiramente, ele tem de ser respeitado, pela história e pela carreira dele. Depois, pela intenção de voto que ele tem. No meu ponto de vista, no momento tínhamos de juntar todo mundo para vencer as eleições. Meu amigo Vanderlan tem uma visão diferente e a está seguindo, eu tenho de respeitá-lo. Mas se eu for negociador nesse processo, minha visão é de aglomerar e marchar junto desde o primeiro turno. Mas pode sair algo diferente disso, são visões.

Euler de França Belém — E nessa aliança cabe Ronaldo Caiado (deputado federal pelo DEM)?
Essa pergunta tem de ser feita para ele. Porque nosso projeto é de âmbito nacional, liderado pela presidente Dilma. Temos de perguntar para ele, se ele aceita um dia votar nela. Eu acho que não, então no meu ponto de vista ele não cabe no nosso projeto.

Nós temos um partido nacional e um projeto nacional, ele tem a história e a legitimidade dele e seu papel e lugar na política brasileira: na direita, conservador, representando o setor produtivo. Mas o meu lugar é outro, estou no campo da esquerda, dos trabalhadores rurais, da mão de obra do mundo produtivo. Acredito que nós podemos construir uma sociedade mais igual, em que o campo seja mais democrático e que as pessoas tenham, via reforma agrária, acesso aos meios produtivos e não sejam só exploradas pelos antigos donos das capitanias hereditárias.

Nós temos visões diferentes de mundo, mas Caiado existe e tem seu lugar. Se ele abrir mão das bandeiras dele e topar apoiar nosso projeto, será muito bem-vindo, mas isso é tão complicado que até eu falar isso soa desrespeitoso.

Elder Dias — Renan Calheiros, Jader Barbalho e José Sarney [políticos do PMDB] abandonaram suas bandeiras pessoais para aderir ao projeto do PT? Ou eles não tinham bandeira?
Você tem de me dizer qual era a antiga bandeira deles e qual é a atual. Se eles tinham uma bandeira diferente da atual. A partir disso posso construir uma resposta. Mas eles apoiam nosso projeto nacional e não vi questionamento nenhum deles sobre o projeto. Se você acha as pessoas bonitas ou feias é outra discussão, mas nosso projeto nacional se fortalece a cada dia, as pessoas estão mudando e sendo incluídas. Elas não estão perguntando se o Sarney é bonito ou feio. Elas estão felizes porque o novo país está dando direito a elas, e agora elas querem mais. Nosso pragmatismo tem um limite, que é não prejudicar nosso projeto de Nação. Por aí estamos seguindo bem.

Euler de França Belém — Qual foi a engenharia montada em São Paulo para lançar Alexandre Padilha a governador? Se ele não estava nem morando no Estado e nas pesquisas Geraldo Alckmin (governador de São Paulo pelo PSDB) está com mais de 50% das intenções e Padilha, com menos de 4%?
Para mim, ele está entre os três maiores quadros políticos do Brasil na atualidade. Ele é filho de São Paulo, paulistano, estudou medicina na Unicamp [Universidade Esta­dual de Campinas], fez especialização na USP [Universidade de São Paulo] e foi pela faculdade que se mudou para o Pará, onde levava um projeto adiante. Por paixão transformadora de juventude, se mudou para lá, transferiu seu título para não deixar de exercer seu direito político. Mas ele é paulista, com toda sua história e sua família lá. Toda a militância política dele pertence a São Paulo, ele foi secretário de Juventude do PT de São Paulo, da direção do partido estadual. Toda a vida dele está lá.

Mas Padilha faz algo que ninguém fazia antes. Ele é o candidato do PT sem nenhuma disputa interna nem nada parecido. É o candidato de consenso mesmo antes de virar o ano. Primeiro, porque ele une o PT e empolga a militância; segundo, porque agrega os aliados como há muito tempo não se via, empolga todo mundo, porque eles conhecem o lutador que vai subir ao ringue. Confiam nele na hora da luta. Ele é um cara acima da média, fora do padrão da política pequena que estamos acostumados a ver. É acima mesmo e empolga as pessoas, tem conteúdo, tem noção exata do projeto que defende, tem visão de Estado, de políticas públicas, está preparado como gestor, é um grande militante e orador. Sem dúvida, é o quadro político mais completo do Brasil. São Paulo, do nosso ponto de vista, está cansado da mesmice do PSDB. É da vida isso.

Cezar Santos — Mas os eleitores paulistas não disseram isso nas últimas eleições...
Vamos conferir isso nas próximas. É mais uma para vocês anotarem: Padilha, governador de São Paulo. Eu vi pesquisas, ainda não conhecem Padilha, continuam votando nesses porque não há nada melhor ainda. E nós vamos mostrar o melhor nestas eleições. Ele é o melhor e o projeto, também, o casamento entre projeto, Estado e União vai ser o melhor para São Paulo. Aliás, o Estado não acompanhou o ritmo de crescimento do Brasil e de inclusão social. Por quê? Nós vamos debater isso na campanha.

Euler de França Belém — Mas diminuiu o índice de violência em São Paulo. É um fator positivo.
De quando é essa estatística? Nós vamos discutir isso também, porque a violência em todos os índices tinha aumentado. Aliás, vamos analisar essa estatística, abri-la para entender melhor, ver se não há muito marketing nisso tudo.

Euler de França Belém — No caso do Rio de Janeiro, por que parte do próprio PT não quer Lindberg Farias (senador pelo PT), sendo que ele seria um candidato forte ao governo, já que Sérgio Cabral (PMDB, governador do Rio) começou muito bem, mas hoje está mal?
Por respeito a um aliado histórico. Cabral é aliado para toda hora, é até bom que haja essa dúvida, em respeito a ele. Porque é um projeto do qual o PT faz parte do governo. É muito legítimo que haja essa discussão de lançar uma candidatura própria do PT. Agora, Lindberg é outro vencedor, um homem extremamente preparado, com uma história fantástica. Eu fiz movimento estudantil com ele e com Padilha, e Lindberg tem um perfil eleitoral muito agressivo, mas, ao mesmo tempo, sem ganhar aquele velho cacoete da política. Tem muita desenvoltura, foi deputado federal, é senador. Já tem uma história razoável, tanto antes de assumir mandatos na vida pública como depois. É um grande candidato.

Mas nós precisamos tratar o Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão (vice-governador do Rio e pré-candidato pelo PMDB) como amigos e companheiros de caminhada. É o mínimo que o PT tem de fazer. Tem divergências e quer romper? Isso tem de ser tratado com destreza, e tanto o PT como Lindberg vão fazer isso.

Euler de França Belém — O sr. disse que Lindberg e Padilha são grandes candidatos. Em Goiás, o sr. acredita que Antônio Gomide também seja o nome forte?
Acho também. Mas, da mesma forma, o PT de Goiás tem de ser tratado com carinho e respeito, nós estamos caminhando juntos desde algum tempo, e é uma caminhada que ainda nos interessa.

Elder Dias — O sr. diz que o PT tem de ser tratado com carinho no Rio de Janeiro, onde o PMDB está saindo. E em Goiás? Hoje está mais para quem aqui no Estado, PMDB ou PT?
Não dá para falar, depende muito, porque o cenário pode virar de pernas para o ar a qualquer momento. É leviano falar disso. Além disso, não nos interessa dizer que um é mais bonito do que o outro, o que interessa é dizer que meu aliado é lindo e que o quero do nosso lado. Tenho de ter essa postura e quem quiser agregar tem de pensar assim também. É um erro ficar fazendo projeções, escolhendo nomes.

O PT tem de ter a grandeza de tratar os aliados sempre bem e nós estamos tendo isso. Acho que o PMDB está tendo essa grandeza também, uns ou outros em determinados momentos ficam mais exaltados, mas nós conversamos e acalmamos. É isso que tem de ser feito.

Euler de França Belém — Rui Falcão [presidente nacional do PT] diz que a prioridade do PT nas eleições é ocupar o Senado. Aqui em Goiás também será?
Como política nacional, nós queremos, sim, eleger senadores. Mas naqueles Estados em que o PT estiver viável ao governo, nós vamos tentar também, com o apoio do PT nacional. Não vai ser rifado nenhum Estado onde o governo para nós estiver viável, afirmo isso com certeza. Nós temos de juntar os aliados e ver qual a melhor posição.

Cezar Santos — O sr. enfatiza muito que o Estado está bem, mas o País cresce bem menos do que o governo queria. A própria presidente Dilma chegou a falar em correção de previsão de crescimento, ou seja, o País cresce menos e poderia crescer mais. O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, falou que o Brasil tem duas pernas mancas, uma confissão de que o País poderia realmente estar melhor...
Ele é economista. Para mim, os economistas deviam fazer medicina ou veterinária (risos). Eu digo que o Brasil está bem, e a expectativa é sempre que ele cresça mais. O papel do governante é puxar para cima, nunca podemos nos contentar com o patamar de crescimento. Ele deve esperar o dobro, criar clima para isso, estimular as pessoas e os setores, vender confiança. O governante tem obrigação de fazer isso.

Nunca esqueço quando na crise de 2009 o presidente Lula foi a público e pediu para as pessoas comprarem, que assim o Brasil não entraria na crise e nos garantiríamos seu emprego. Antônio Palocci, por exemplo, não era economista e foi um grande ministro da Fazenda. Mas vamos fazer nossa análise de leigo: eu não vejo nada no horizonte que assuste o Brasil. A crise mundial começa a demonstrar sinais de arrefecimento. O índice cambial assusta, mas, para nós, que estamos estruturando uma economia em longo prazo, fortalecendo pilares concretos, não queremos viver uma crise, mesmo tendo perdas imediatas, em longo prazo é fundamental não manter o clima de crise mundial.

Houve, é bom ressaltar, divergência de projetos para enfrentar a crise. E nós a enfrentamos de maneira grandiosa, em meu ponto de vista. A visão brasileira de enfrentamento venceu no mundo. A política da América Latina, de cortar o custeio do Estado, acreditando que isso era o grande problema, confronta com a política de investimento, de geração de empregos, de fortalecer, e, no auge da crise, a Alemanha tinha uma tendência a seguir o corte de custeio, puxando o freio. O Brasil veio com a visão diferente e debateu mundialmente, e nós prevalecemos. Pelo nosso caminho a União Europeia começou a dar sinais de caminhar novamente, o que não ocorreu pelo caminho da Alemanha.

Euler de França Belém — Outro ponto, que inclusive muitos empresários falam, é que para haver crescimento, tem de existir infraestrutura. O governo anunciou agora um grande investimento em estrutura. Como o sr. vê isso?
Eu volto a dizer: nós temos uma síndrome de pequenez. Quando a gente puxa uma onda negativa sobre qualquer coisa, todos nós nos contaminamos muito rápido. Qualquer notícia ruim, seja economista ou jornalista, é da nossa cultura. Para a gente, tudo no Brasil é ruim e não presta...

Cezar Santos — Mas os dados comprovam que o Brasil é o país que menos cresce entre os emergentes. São dados, não há como não ver.
E qual o problema nisso? Buscam parâmetros para dizer se o País está bem ou mal que, para mim, não são parâmetros que se sustentam. Por exemplo, nós estamos vivendo o pleno emprego e vivemos uma democracia que a China não vive, aliás está longe disso. Nossos pilares são muito mais sustentáveis que os da China. Ela está galopando agora no crescimento dela, mas eu não sei se no caminho vai trombar com algo.

Todos os parâmetros para sustentar a base da economia brasileira em longo prazo o Brasil os tem estruturados; outros países emergentes, talvez não. Então, comparar o crescimento bruto entre esses países, para mim, não tem razão. Admito que seja legítimo que pensem assim, mas eu tenho tranquilidade para dizer que isso está errado, que isso é pessimismo e depressão.

A gente precisa acreditar. Quando vem essa onda de depressão, as pessoas compram menos e precisamos reverter essa onda, porque aí entramos numa disputa de humor e opinião, não só de números. Mas, se tiver de fazer disputa de números, nós a faremos. Vivemos no pleno emprego, fizemos várias frentes de investimento. Estamos trabalhando para desburocratizar vários setores que os empresários reclamam. Enfrentamos o sistema financeiro — tema que, não sei por que, sumiu da pauta da imprensa e que deveríamos trazer de volta para que a imprensa nos ajudasse nesse enfrentamento. Não é simples uma questão como essa. Hoje nós vivemos esse enfrentamento com o setor financeiro.

Elder Dias — E como se dá isso?
Queda de braço. Sob os juros, empréstimos bancários para alavancar dinheiro para créditos, aumentar a capacidade de financiamento para as pessoas mais humildes...

Elder Dias — Eu falo nisso, porque uma das maiores críticas ao governo Lula é de que foi um governo amigo dos banqueiros. O próprio Lula disse que os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro como no governo dele...
Em compensação, a presidente Dilma, colhendo os frutos da gestão do Lula, fez um enfrentamento explícito dos banqueiros. Mas vamos começar pelo presidente Lula. Eu falei aqui uma vez que ele demitiu o presidente do Banco do Brasil por ter ordenado a baixa dos juros, mas o BB o desobedeceu. Ele determinou a um banco oficial que baixasse os juros e os economistas falaram que era intervencionismo nosso, uma manobra para colocar companheiros do PT no banco. E Lula falou que não era, que a questão eram os juros. Ora, se os bancos estatais não baixam os juros, como puxaremos os privados? Se não conseguimos obrigar os bancos privados, nós vamos disputar. E nisso, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil ganharam muito dinheiro. A tática do presidente deu certo quando todo mundo dizia que baixar os juros iria quebrar o banco.

Entrou então a presidente Dilma e ela comprou a briga, enfrentou uma enorme resistência dos bancos para baixar os juros. Até hoje, a reação dos bancos é ruim, eles cortam os créditos de 60 meses, apertaram as aprovações e outras coisas. Houve concretamente um enfrentamento que ainda é duro, só que a mídia não pauta isso. Sinceramente, eu acho que é porque não interessa à imprensa isso, e então isso acaba deixando de ser assunto. Mas, para mim, ainda é, o governo vai terminar com uma grande vitória nessa questão, só que se descuidar volta tudo.  Não podemos deixar de lado.

É uma cultura do sistema financeiro do Brasil, ganhar uma montanha de dinheiro em cima do nada. Pagamos três vezes o valor de um objeto por conta dos juros. Então é necessário fazer esse enfrentamento, mesmo que não seja pauta da imprensa. Nós temos de comprar essa briga e vencer essa cultura, a disputa de hegemonia na sociedade.

Por isso que eu repito: o Brasil vai bem e ano que vem continuará indo. Mas aí entra a relativização do que é “bem”. Por exemplo, minha filha é aprovada com nota 6 no colégio e eu acho ruim, querendo 7 ou 8. Mas, se pensarmos, que ela até o meio do ano tinha nota 3, com dificuldades, foi uma evolução grande, demonstrando muita capacidade e potencial. O Brasil é um gigante que durante muito tempo foi tratado como um menino. Nós estamos começando a organizar o Estado brasileiro para se comportar como grande na economia, no cenário nacional, no trato interno das pessoas e das leis.

A população foi às ruas por quê? Por causa da crise de 2009? Por causa de emprego? Não! Foi porque quer mais: quer transporte de qualidade, educação, quer um Estado melhor. Esse novo Brasil é um país em que a própria população já está em outro patamar, exige qualidade de vida. Para nós, para as eleições do ano que vem, isso é ótimo. Imagine se a pauta fosse um Brasil quebrado, desemprego, inflação estourada? Estaríamos em uma situação complicada.

Cezar Santos — Nem o fato de a inflação estar sempre perto do teto lhe faz rever essa análise positiva do Brasil?
Não, e pego por exemplo o preço do tomate. Ele teve uma crise no início do ano, sofreu uma elevação e a imprensa fez um carnaval com isso. Mas logo depois o preço do tomate voltou ao patamar normal, o mercado tem dessas coisas. São ciclos.
Na conjuntura atual, a meta bater no teto não é problema. O que seria o problema é perder o controle dessa curva, mas nós a temos sob controle, juntamente com a curva do desemprego, porque não adianta tem o controle de um e escapar o do outro. São índices bem próximos, não podem andar separados. Mas o Brasil está muito bem, ainda mais no cenário desastroso em que está o resto do mundo nessa crise. Basta nos comparar à Espanha, à Inglaterra, à Europa como um todo.

Cezar Santos — O governo vai abandonar o tripé macroeconômico baseado em metas para inflação, taxas flutuantes de câmbio e geração de superávits primários?
Não, de maneira nenhuma. A gente vem forçando as pernas desse tripé ao limite do bom senso, a presidente Dilma nunca abriu mão de ter controle sobre a inflação. Se não abre mão disso, não podemos ignorar o que é chamado de tripé econômico.

Euler de França Belém — E o ministro Guido Mantega? Vai sair do governo?
Isso só quem pode te responder é a presidente Dilma, mas, em minha opinião, ele fica.

Euler de França Belém — O governo anunciou que vai investir em portos, um problema sério do País. Além disso, as ferrovias nunca são terminadas. O que vai ser feito?
O governo já está tomando algumas medidas, mas o problema é que temos de trocar o pneu da bicicleta com ela andando. Porque concretamente, para se rasgar um país e construir ferrovia é completamente impossível hoje, por causa das leis ambientais, da fiscalização do Ministério Público, do Tribunal de Contas, da CGU [Controladoria-Geral da União], do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos]. Sinceramente, é muito difícil fazer.

Mas ainda assim, com todo o aparato burocrático e legal de fiscalização, nós estamos fazendo. Seria mais fácil fazer fora desse sistema, porque, qualquer mudança que sugerimos nessas questões, já falam que estamos querendo burlar as leis, corromper ou roubar. Os pressupostos de transparências que foram instituídos desprezam meios como a internet, a capacidade de fiscalizar pelo mundo digital, que antes não era possível. Por exemplo, dá para analisar toda a obra da Arena Corinthians assistimos on-line, ao vivo. Há 20 anos isso não era possível. Precisamos mudar algumas leis e procedimentos fiscalizatórios.

Parece uma bobagem, mas tenho de explicar. Quando entrei, a Caixa Econômica tinha algo de 8 mil processos para rodar e fiscalizar. Há dois anos, quando comecei a trabalhar com a Portaria 15 — que trata de transferências voluntárias para Estados e municípios —, a Caixa rodava mais de 80 mil contratos. Hoje, deve estar com algo em torno de 120 mil. Imagine o aparato burocrático para fazer tudo isso andar, para fiscalizar tudo, é absurdo.

E o que acontece é que 80% desses contratos são de pequeno valor. O que nós gastamos para fiscalizar uma quadra de esporte nas escolas, de 15 mil, é praticamente o mesmo que gastamos para fiscalizar a obra no Rio São Francisco. Isso está errado, é uma burrice do Estado brasileiro, mas a lei nos obriga a agir dessa maneira. Isso precisa ser mudado, mas toda vez que tentamos falam que estamos quebrando a transparência.

Elder Dias — O sr. deve se lembrar de uma pasta que existiu na época do general João Figueiredo [presidente do Brasil entre 1979 e 1985], que se cha­mava Ministério da Desburo­cratização. Se pensar que existia isso, hoje, é algo quase surreal. Mas o Estado brasileiro é altamente burocrático e para a Copa se fez necessária uma lei particular, para fugir da burocracia. Como mudar essa cultura, que é tão arraigada no Brasil?
Por isso que eu falo que estamos trocando o pneu com a bicicleta em movimento. Não dá para parar o País e resolver essas questões. Seria um caos completo. Não temos o que fazer, não existe escolha. A população e a imprensa não nos permite isso, a gente tem de fazer as coisas, as obras, e ao mesmo tempo tentar re­formar o sistema. E estamos fa­zendo assim. Poderia gastar horas para falar dessas pequenas reformas que temos feito para aumentar e transparência e diminuir a burocracia. Mas cada coisinha dessas, pequena, é uma guerra.

Um exemplo é o Regime Dife­rencial de Contratações (RDC). A imprensa tratou como se estivéssemos quebrando a transparência para ocultar os preços. Mas o RDC já mostrou que é um avanço no sistema de licitações, porque você não lança o valor da obra, solta o edital com os itens, as empresas mergulham nesses preços e essa concorrência tem baixado o preço geral. E nisso tudo se ganha um ano, se comparado à licitação normal. Só que isso pode ser feito apenas para o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], a Copa e a Olimpíada. Estamos mudando quase na marra, dentro dos programas do PAC. Se a obra for pelo PAC, as prefeituras podem usar esse sistema e, então, nós temos orientados todas as prefeituras que utilizam o PAC a fazer dessa maneira. 

Euler de França Belém — No aspecto de Goiás, o Aeroporto Santa Genoveva também está parado...
É outro exemplo da burrice do Estado. As pessoas que verificaram supostas irregulares no contrato do aeroporto de Goiânia deveriam responder criminalmente por isso. Elas analisaram alguns itens que, para eles, estavam com sobrepreço e denunciaram esses itens tratando toda a obra como irregular junto ao Tribunal de Contas da União. O TCU comprou a tese e paralisou a obra. Passados cinco anos, o mesmo tribunal chega à conclusão de que não deveria ter parado a obra e que o sobrepreço não era tão relevante assim. Isso criou um prejuízo imensurável à sociedade, mil vezes maior do que o suposto sobrepreço. Ainda tem um detalhe: poderiam ter concluído a obra, para depois pagar, após a investigação, se fosse realmente constatado o sobrepreço nos itens. Era só retirar os itens da lista de pagamento e processar os responsáveis.

Euler de França Belém — E hoje, como está a obra?
Hoje ela está retomada. Só que quantos anos e quantos milhões o Brasil, Goiás e a cidade de Goiânia perderam nisso?

Elder Dias — Inclusive afetou a candidatura a cidade-sede da Copa.
Justamente, porque um dos itens de maior responsabilidade pela exclusão de Goiânia foi o aeroporto precário. E a culpa é de quem? É do governo federal? Esse processo é burro e as pessoas que embargaram a obra no TCU deveriam responder criminalmente, porque o mal causado por elas ao Estado e à sociedade foi imenso, mas elas não vão pagar por isso. Uma pessoa que nunca pisou em um canteiro de obras e jamais estudou engenharia determina o estado da obra, criminaliza pessoas, derruba as expectativas da população, causa de perda de dinheiro e nada acontece.


Subchefe de Assuntos Federativos, Olavo Noleto: “Quem embarga obra no Brasil deveria responder pelos prejuízos”

Euler de França Belém — E a Ferrovia Norte-Sul? O que acontece com ela? Por que já falaram várias vezes que iriam inaugurá-la e nada até agora?
Essa ferrovia é grande demais. Nós a pegamos com 200 quilômetros de trecho construído e já estamos quase concluindo até Anápolis para chegar a Ouro Verde. Em uma obra desse tamanho há vários trechos e vários lotes de obra. Um ou outro sempre dá problema. Já estamos dialogando com o Tribunal de Contas e o Ministério Público, que querem tratar cada fio de grama e não deixam a obra andar.

Ora, se tem problema, aponte-o, prove e glose [subtração de certa parte, reposicionando-a ao montante original]. Mas não, fazem queda de braço, parecendo que não querem que a obra termine. Mas vai terminar, em 2014 nós vamos inaugurá-la. E vai ser histórico, rasgar um país com uma ferrovia, em meio a tanta burocracia, é algo para escrever livros.

Euler de França Belém — De maneira geral, o que de significativo a presidente Dilma fez por Goiás?
Ela fez demais! Primeiramente, a própria Ferrovia Norte-Sul, que vai ser um marco na história do País. Isso que se chama de “trecho” é uma revolução e vai ser provado em números. Porque a economia do Estado vai ser tratada na história como antes e depois da ferrovia.

Além disso, o volume de investimentos federais feitos em Goiás é absurdo, assim como o número de financiamentos e empréstimos que o Estado extraiu do governo federal. A imprensa goiana fala algo em torno de R$ 8 bilhões — e eu já perdi a conta disso —, tudo de aporte financeiro, a maioria de empréstimo. Recursos do PAC, do BNDES [Banco Nacional de Desenvol­vimento Econômico e Social], do Banco do Brasil e da Caixa Eco­nômica. Se for juntar o volume de recursos que existe para Goiás, fica provado que a União auxiliou decisivamente para viabilizar o Estado de Goiás durante o governo da presidente Dilma. Posso afirmar isso, e tenho certeza de que ninguém vai negar.

Elder Dias — Dá para fazer uma comparação a outros Estados? Por exemplo, Goiás foi mais beneficiado do que um Estado governado pelo próprio PT?
Sim, a ajuda para Goiás foi bem maior. Posso dizer que Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Norte, governados pela oposição, receberam mais recursos proporcionais do que a Bahia, o Acre e o Ceará [governos de aliados de Dilma Rousseff]. Podem pegar os números e compará-los, não tem erro.

Euler de França Belém — O PMDB de Goiás tem criticado muito isso, diz que a ajuda de Dilma a Marconi Perillo (PSDB) é muito grande. Alguns líderes chegaram a fazer um protesto em Brasília, mas a presidente continua com essa conduta chamada de “republicana”. Está em uma posição de estadista e não política. Porém, é muito criticada pelo PMDB goiano, que alega que Dilma viabilizou não só Marconi como governador, mas também como político. Como o sr. analisa essa questão?
Posso falar três coisas importantes nisso. A primeira é que Dilma viabilizou o Brasil como um todo. Foi forte, pensou estrategicamente e tudo o que era preciso para estimular os investimentos dos Estados, para enfrentar esse cenário de crise, ela fez. Uma das estratégias era justamente essa: viabilizar os Estados brasileiros, e isso foi feito.

É uma visão estratégica e, ao mesmo tempo, é uma visão republicana. E nós gostamos desse termo, porque na maioria dos Estados brasileiros os governadores não praticam isso como nós praticamos no governo federal. Não olhamos o partido de um governador ou de um prefeito para liberar o volume de investimento no Brasil afora, mas muitos governos tratam diferentemente os prefeitos de coloração partidária contrária.

Euler de França Belém — Marconi Perillo está inserido nessa visão “republicana” com os prefeitos de Goiás?
Essa afirmação eu prefiro não fazer. Têm prefeitos que eu sei que ele trata bem, têm outros que reclamam um bocado. Mas eu, como governo, não posso criticar nenhum governador, nem mesmo o do meu Estado. Se um dia eu não estiver no governo, quem saiba eu possa me posicionar mais agressivamente.

Euler de França Belém — Direcio­nando o caso, uma das pessoas que o PMDB de Goiás critica bastante é justamente o sr., alegando que é um dos que ajudam a viabilizar as coisas para o governo Marconi...
Eu sou uma das pessoas que ajudam a viabilizar o governo em todos os Estados, de todos os partidos. Para todos os prefeitos de todos os partidos. Eu me orgulho de ter na minha história o respeito de políticos de todos os lados. Ano que vem algumas pessoas falam que não vão torcer pelo Brasil na Copa porque, se nossa seleção vencer a Copa, vai ficar tudo bem no País. É bobagem, todo mundo torce para o Brasil dar certo, assim como ninguém torce para Goiás dar errado. Se não gosta do governante, tudo bem, agora o governo Dilma não vai ter esse pensamento pequeno com nenhum Estado da Federação, nem aqui em Goiás. É essa a questão. Sou responsável pelo bom diálogo com todos os atores políticos, essa é a minha tarefa. Se eu não mantiver essa bom diálogo, não tem por que eu estar nesse cargo. A minha missão é essa e acho que a estou cumprindo bem; se não estivesse, alguns atores políticos por aí não estariam chateados assim.

Euler de França Belém — E o programa Mais Médicos? Foi um acerto? O resultado está sendo bom?
Eu sou suspeito para falar, porque sou eu quem trata diretamente com os prefeitos sobre suas dores. Uma das dores é o custeio da máquina e, dentro dele, o custeio da saúde, o pagamento de médicos e remédios. Nós atacamos essas duas frentes para apoiar as prefeituras. Mas não se trata de uma ajuda, se trata de colocar médicos para atender as pessoas onde não tinha ninguém. Mas os líderes da categoria trataram isso como disputa de mercado, o que na minha visão é injustificável. Está provado que o mercado não foi atacado. Só que o comportamento dessas lideranças dificultou muito a implantação do programa. Mas os primeiros resultados são de ordem prática. Têm médicos atendendo diariamente em lugares onde não se conseguia levar ninguém para atender uma vez por semana. Não dá para mensurar. Têm municípios na Amazônia que pagam, juntos, R$ 90 mil por mês para anestesistas se revezarem no atendimento durante três dias da semana. E, mesmo assim, não aparece profissional.

Não tenho nada contra as pessoas ganharem dinheiro, mas não pode ser em cima de um controle de mercado que corrompe a sociedade. As vagas para medicina anestesista por ano são muito poucas, seria preciso triplicar o número para atender toda a população.

E sempre tomamos os cuidados para não desrespeitar o profissional médico, deixando claro que acreditamos na medicina brasileira, na formação profissional do País e que não tínhamos a intenção de tirar o emprego de ninguém. Tudo isso foi um pressuposto para o programa, mas, concretamente, se não tivéssemos feito essa intervenção, daqui a 20 anos nós teríamos o mesmo quadro de municípios mais pobres sem médicos para a população. É papel do governo comprar essas grandes brigas, e nós compramos essa.

Cezar Santos — Mas e a necessidade de equipar os centros médicos, de melhorar as condições, a estrutura da saúde? O programa prevê intervir nisso também?
Prevê ações sobre um tripé. Nós abrimos inscrição para os prefeitos reformarem todos os postos de saúde do Brasil. Todos os prefeitos que se inscreveram, solicitando reformas nos postos de saúde de sua cidade, tiveram seu pedido aprovado e estamos financiando as reformas. A gente fortaleceu o repasse de verba da saúde em 3 reais por habitante. Uma cidade de 100 mil habitantes, por exemplo, passou a receber R$ 300 mil a mais por mês, do bolo que o governo federal recebe. 

A gente estruturou a construção de cerca de 400 UPAs [unidades de pronto atendimento] no Brasil, que funcionam como o Hugo [Hospital de Urgências de Goiânia], por exemplo, são mini-Hugos. Há mais de 2 mil UBS [unidades básicas de saúde], que são os postinhos de saúde, reestruturadas também para fazer o atendimento. Com o Mais Médicos, estamos reformando os centros de família. Colocamos mais dinheiro para os municípios adquirirem remédios, montamos a Farmácia Popular, dando remédios de graça para a população, tudo está vindo de forma casada.

Além do médico que botamos nas cidades, pagando do nosso bolso, nós oferecemos mais R$ 4 mil para a montagem de uma equipe. Esse médico está orientado pelo programa para montar um relatório e diagnosticar os problemas do local em que está atuando. Isso vai ser contrastado com o relatório que nós já temos e com o tempo ir forçando as prefeituras a reestruturarem seus postos.

E vale lembrar que nem o médico nem o posto são federais. Isso é apenas um estímulo para trazer os municípios para um política pública que garanta o atendimento médico qualificado para as pessoas. Mas o posto não é nosso, então temos de fazer o prefeito aderir às ideias do programa.

Outra coisa colocada na mesa é um controle de qualidade. Construímos metas a serem alcançadas pelos municípios, que quando alcançadas, se tornam prêmios em forma de dinheiro para a saúde da cidade. Tudo isso está caminhando junto com o Mais Médicos; quando falam que não adianta ter médicos com a atual estrutura, está certa a crítica, mas já existia um diagnóstico antes de começar a implementação do projeto. O que já temos de unidades básicas, UPAs, subsídios e estímulos para a qualidade é algo que veio antes. Agora tem algo que para o senso comum contrasta com essa discussão, que são os hospitais públicos. Mas aí não estamos falando de atendimento básico, só que tudo é misturado e botado na mesma cesta.

Para o atendimento básico, essa é a estratégia. Para a média e alta complexidade a novela é um pouco mais complicada, até porque os hospitais também não são nossos. Alguns hospitais federais são verdadeiras bombas, porque estão em lugares que vivem verdadeira guerra civil, no ponto de vista da saúde, e o papel do hospital federal vem suprir a responsabilidade do hospital estadual. E esses hospitais também nós estamos equipando, colocando as metas que, cumpridas, se revertem em bonificação. Recentemente ocorreu isso nos hospitais goianos em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde.

Quando se põe a mão na saúde e vê que existem pessoas que reagem com muita raiva, a situação tem de ser analisada. Essa raiva não vem do nada e o programa Mais Médicos afeta interesses; por isso se fez esse barulho todo.

Cezar Santos — Há pouco o sr. disse que ouve as dores dos prefeitos. Uma grande crítica que é feita é a grande concentração de recursos na União e isso é fato. Chegam a dizer, por exemplo, que quando o governo baixa impostos dos carros está fazendo cortesia com chapéu alheio. Como o governo tem trabalho nessa questão?
Eu sou a pessoa que trata diretamente disso e apanho muito sobre o tema. Primeiro: as isenções são feitas para fortalecer a economia e consequentemente a arrecadação. Se a economia cai, a arrecadação cai também. Se a economia do Brasil tivesse degringolado, a arrecadação teria caído muito mais do que com a isenção do imposto. É um olhar equivocado.

Mas você não fala para um paciente que ele não está sentindo dor, você fala que a dor está em outro lugar, e é desse outro lugar que vamos tratar. No caso dos prefeitos estamos fazendo isso: falamos que não é a isenção que derruba a capacidade de investimento da cidade. O crescimento nominal do FPM [Fundo de Participação dos Municípios] está em torno de 7%, e o real está de 1% para 2%, então não há queda. Mesmo assim, para dialogar sobre essa dor, nós damos uma anestesia, que é a injeção de R$ 1,5 bilhões no FPM feita no dia 12 de setembro e mais R$ 1,5 bilhões em abril, que é uma ajuda no FPM deles.

Além disso, o governo deu máquinas retroescavadeiras às prefeituras das cidades menores e também vamos entregar caminhões-caçamba e motoniveladoras. Isso é custeio, porque o que ele gasta com conserto e aluguel de máquinas, um valor alto, o prefeito vai passar a economizar. Aumentamos o repasse da saúde e da educação. Ou seja, tudo isso é custeio na veia. A gente tem uma sensibilidade forte, dialogamos com as dores deles, a fim de amenizar e explicar isso. É bom para todo mundo essa medida, porque vamos fortalecer a economia.

Elder Dias – A distribuição dos recursos não está errada? O certo não seria esse dinheiro ir direto para os municípios?
Mas ele vai direto para as prefeituras, porque o bolo do IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados] e do Imposto de Renda é dividido: 23,5% vai para as prefeituras, 22,5% para os Estados e o restante, para a União...

Elder Dias – Mas essa fatia da União não é grande demais?
Não. Para fazer o PAC, os investimentos, as isenções, segurar o Estado e a economia, é preciso de uma União forte. O problema é que, como a economia é fraca, o que se arrecada não é o suficiente para cumprir o papel do Estado. A arrecadação versus o PIB [Produto Interno Bruto] fica em uma carga tributária alta, mas a realidade é que isso é resultado de um processo de uma década perdida, a de 90. Ela foi perdida e estamos pagando o preço agora.

Agora podemos andar pelo País que vamos ver que o pequeno comércio está andando, as pessoas estão empregadas e comprando, que o trabalhador rural está comprando moto, TV nova. É só conversar com as pessoas mais humildes que você vai ver que a vida delas melhorou. Então, a nossa orientação não pode ser nos fortalecer para nós mesmos, a discussão não pode ser se o prefeito está feliz ou triste. A discussão é se o cidadão da cidade está com a vida boa ou ruim. O Estado brasileiro não existe para ele mesmo. Nós estamos interferindo na economia há muito tempo para bombear o coração do mercado novamente para não morrer; é preciso correr uma maratona, mas antes o Brasil não conseguia correr uma disputa de 100 metros.

Os prefeitos, que têm quatro anos de mandato, querem tudo para agora. O governo brasileiro não tem de pensar no agora, tem de pensar no ontem, no hoje e no amanhã. Tem essa obrigação, e os prefeitos estão começando a perceber isso. Nossa parceria com os prefeitos é uma parceria estruturante, que não discrimina nem A nem B. Existe uma orientação estratégica, um olhar para o futuro e um compromisso público.

Elder Dias — E para conseguir os benefícios, como, no exemplo citado pelo sr., o da reforma nos postos de saúde, o prefeito precisa solicitar. Qual a porcentagem das prefeituras brasileiras faz essa mínima ação para conseguir os benefícios do governo federal?
Depende do tipo de programa. Por exemplo, pedir asfalto todo mundo pede, mas para pedir quadra para as escolas é necessário fazer campanhas para as prefeituras aderirem, mesmo já tendo todo o recurso. Nesse caso das quadras, a ideia inicial era fazer ou reformar as quadras nas escolas com mais de 500 crianças; depois, foi necessário reduzir esse número e passamos a atender escolas com mais de 300 crianças; e ainda fomos baixando, até que hoje, se a escola tem mais de 100 crianças nós estamos liberando a construção da quadra coberta ou de sua reforma.

Frederico Vitor – Recentemente o governo Dilma envolveu US$ 4,5 bilhões em compra de caças para repor a frota do País, o que realmente era uma carência. Como está o plano estratégico para a defesa militar, que é uma área tão delicada?
Para ser bem sincero, estou um pouco desatualizado com o tema, mas o que eu sei é mais conceitual. Um grande país como o Brasil tem de investir em tecnologia de ponta, em defesa, tem de jogar o grande jogo, isto é, defender o País, a Nação e pensar no futuro. Nós sempre fomos compradores de tecnologias prontas, nunca nos propusemos a sermos protagonistas nessa área. Agora o Brasil está mudando essa postura, e isso não é simples. É uma mudança de orientação estratégica.

Esse episódio dos caças é reflexão dessa mudança de postura. Acredito que os melhores frutos dessa mudança de orientação nós vamos colher mais rapidamente em outras áreas. Um exemplo mais perto de nós, o envio de estudantes com bolsas para estudar no exterior, vai ter uma repercussão enorme para nossas universidades e na produção científica brasileira, para qualificação da mão de obra. É algo que parece básico e o Brasil não fazia. Isso compõe o pacote de mudanças estratégicas que faz a gente pensar como um país grande. Produzir conhecimento e não só consumir. Mas isso não é do dia para a noite, tem de ser plantado demoradamente para depois colher. É uma conduta em que nós acreditamos estar acertando em cheio.

Frederico Vitor – O sr. acredita que o escândalo de espionagem dos Estados Unidos influenciou na compra dos caças suecos, que foram os escolhidos pela Presidência?
Essa é uma resposta que só a presidente Dilma pode dar, mas, se fosse eu, teria influenciado, sim, porque acho que um dos elementos para uma parceria é a confiança. Mas não participei do processo decisório, então não posso confirmar nada sobre isso.