Segurança Pública
Segundo a Polícia Penal de Goiás, dois custodiados conseguiram acessar a área externa do presídio
14 dos 17 deputados goianos votam a favor do PL Antifacção; proposta segue agora para o Senado
A Operação Cifra Vermelha, deflagrada nesta terça-feira, 18, pelo Ministério Público de Goiás (MPGO), revelou que integrantes do Comando Vermelho utilizavam filhos adolescentes, de 12 e 14 anos, em um esquema milionário de lavagem de dinheiro. A ação é considerada uma das maiores já realizadas contra o crime organizado no estado.
A ofensiva foi conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) em parceria com o Comando de Operações de Divisas (COD) da Polícia Militar. Durante coletiva de imprensa realizada no período da tarde, as instituições detalharam o funcionamento da estrutura financeira da facção criminosa.
O alvo principal da operação foi um núcleo especializado em lavar recursos oriundos do tráfico de drogas. Ao todo, foram sequestrados R$ 28,1 milhões de contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas. Também houve apreensão de veículos, três armas de fogo, além do cumprimento de 13 mandados de busca e apreensão e sete mandados de prisão preventiva e temporária. Com essa ação, o MPGO totaliza nove operações contra facções apenas em 2024.
As investigações começaram há cerca de um ano e envolveram quebras de sigilo bancário e telemático, análise de comunicações fragmentadas e monitoramento de fluxo financeiro. O responsável pelo esquema — apontado como autor intelectual — tem histórico por receptação, crimes patrimoniais e tráfico de drogas, com atuação vinculada ao Comando Vermelho há quase uma década.
Mesmo sem condenação definitiva por integrar organização criminosa, o Gaeco afirma que os indícios comprovam sua participação contínua na facção. Ele e a companheira, que residem fora de Goiás, comandavam o núcleo: ela era responsável por operacionalizar as movimentações, administrar grupos de WhatsApp, abrir contas bancárias e cobrar depósitos de traficantes.
O casal criou empresas de fachada com objetos sociais amplos, permitindo aparentar legalidade em transações suspeitas. As movimentações envolviam compra de gado e constituíam negócios fantasmas já identificados em outros estados, como o Maranhão.
Um dos pontos mais graves identificados pelos investigadores foi o uso de contas bancárias abertas em nome dos filhos do casal. Apenas entre 2023 e 2024, essas contas movimentaram cerca de R$ 882 mil, em um esquema que chegou a R$ 8 milhões em dois anos.
“Sem dinheiro, a engrenagem não gira”
O tenente-coronel Machado destacou que o objetivo central da operação foi atingir o fluxo financeiro da facção, responsável por sustentar atividades violentas e logísticas do Comando Vermelho. Segundo ele, o sequestro de quase R$ 30 milhões impacta diretamente a compra de drogas em fronteiras internacionais, reduzindo a capacidade de atuação do grupo.
Ele citou valores de aquisição e revenda de entorpecentes: um quilo de maconha pode custar entre R$ 250 e R$ 300 no Paraguai e ser revendido por até R$ 50 mil em Goiás. Já um quilo de cocaína comprado por US$ 10 mil a US$ 15 mil na Bolívia chega a ser vendido por até € 250 mil na Europa. “Sem suporte financeiro, o crime organizado não se mantém”, afirmou.
Realidade de Goiás difere do Rio de Janeiro, diz MP
Durante a coletiva, promotores enfatizaram que, ao contrário do Rio de Janeiro, Goiás não possui territórios dominados por facções. Eles afirmaram que o estado mantém soberania em todas as áreas e que a estratégia local prioriza sufocar financeiramente as organizações para evitar expansão territorial.
Compararam ainda com operações recentes no Rio, que resultaram em dezenas de mortes e revelam um cenário de conflito armado. Em Goiás, a ação integrada busca impedir que facções alcancem o mesmo nível de domínio.
Monitoramento e proteção de servidores
O MPGO informou que monitora atualmente 85 lideranças do crime organizado no estado, muitas delas presas. O objetivo é evitar progressões indevidas de regime e acelerar julgamentos de pessoas que respondem a vários processos.
Promotores também ressaltaram o risco enfrentado por servidores públicos envolvidos nessas operações e defenderam revisão da política de proteção funcional. Relataram o caso de um promotor prestes a se aposentar que perderá a segurança institucional ao deixar o cargo.
Esquemas cada vez mais sofisticados
Segundo o Ministério Público, o crime organizado tem se especializado especialmente na área de lavagem de dinheiro, utilizando qualquer tipo de atividade comercial para legitimar recursos ilícitos. Por isso, defendem mais integração entre polícias, MP e Judiciário.
O Gaeco afirmou que a Operação Cifra Vermelha é apenas a primeira etapa de um conjunto de ações que ainda serão deflagradas. Novas fases devem mirar outros operadores financeiros relevantes do Comando Vermelho. “Nosso objetivo é sufocar a base econômica da facção”, destacou o MPGO.
A operação representa, segundo as autoridades, um golpe direto no financiamento da facção em Goiás, com impacto estrutural e até internacional. Além de atingir quase R$ 30 milhões da quadrilha, desarticulou um núcleo de lavagem que utilizava empresas fictícias, compra de gado e até contas em nome de crianças.
A ofensiva reforça a estratégia de asfixia financeira como principal caminho para desestruturar o crime organizado e mostra, de acordo com o MPGO, a capacidade das forças de segurança goianas de agir com eficácia e rapidez.
Leia também:
Em almoço com deputados, Caiado pede reforço de emendas para o custeio da saúde
TRE aceita denúncia e Amauri Ribeiro vira réu por violência politica de gênero
Quando os cursinhos travaram sua primeira guerra — e o Jornal Opção era o campo de batalha
Segundo Caiado, o país vive “uma deterioração completa do Estado Democrático de Direito”
Motta afirmou que o papel da Polícia Federal no combate ao crime organizado é “inegociável”
O debate ocorre paralelamente à tramitação, na Câmara, da PEC da Segurança Pública, que propõe dar status constitucional ao Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e ampliar a articulação entre União e estados
Evento objetiva troca de experiências das forças de segurança
Comissão ganhou tração após a megaoperação no Rio de Janeiro que deixou 121 mortos
Para 87%, o Rio vive um verdadeiro “clima de guerra”
CPI será instalada no Senado Federal na próxima terça-feira, 4
A Câmara dos Deputados pretende votar, até o fim de 2025, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que tem como objetivo integrar e fortalecer as forças de segurança pública em todo o país.
A proposta ganhou destaque nos últimos dias após uma operação no Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho, que resultou em mais de 120 mortes, reacendendo o debate sobre o combate ao crime organizado no Brasil.
Segundo o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a votação deve ocorrer nas primeiras semanas de dezembro. O calendário foi definido com o relator Mendonça Filho (União Brasil-PE) e o presidente da comissão especial, Aluísio Mendes (Republicanos-MA).
Apresentada pelo governo Lula, a PEC já foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e aguarda análise da comissão especial. A PEC da Segurança Pública propõe um novo modelo de integração entre União, estados e municípios no combate ao crime, prevendo diretrizes nacionais para as polícias e maior coordenação federal sobre o tema.
O governo considera o texto uma medida estratégica para fortalecer a segurança pública e enfraquecer o crime organizado, além de enxergá-lo como um trunfo político para as eleições de 2026.
Contudo, alguns governadores, como Ronaldo Caiado (UB-GO), e secretários estaduais criticam a proposta, afirmando que ela pode limitar a autonomia dos estados nas políticas de segurança.
Principais pontos da PEC da Segurança
1. Ampliação das competências da União
A proposta amplia o papel do governo federal na definição de políticas e estratégias de segurança pública e penitenciária. A União passará a coordenar o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) e o sistema penitenciário nacional, com participação dos estados e municípios.
Mesmo assim, o texto mantém a autonomia dos governadores sobre as polícias civil, militar, penal e bombeiros.
2. Integração entre governos
A PEC determina que União, estados e municípios devem atuar de forma integrada e coordenada na defesa social e na manutenção da segurança pública, seguindo diretrizes nacionais para aumentar a eficiência das operações.
3. Atuação ampliada da Polícia Federal
A Polícia Federal (PF) passa a ter competência explícita para investigar organizações criminosas, milícias e crimes ambientais, áreas em que já atua, mas atualmente depende de decisão judicial para intervir.
4. Transformação da PRF em Polícia Viária Federal
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) será renomeada para Polícia Viária Federal, ganhando novas atribuições, como o patrulhamento de ferrovias e hidrovias federais. A corporação também poderá auxiliar as polícias estaduais mediante solicitação dos governadores.
5. Reconhecimento das guardas municipais
As guardas civis municipais passam a integrar oficialmente o Sistema Único de Segurança Pública, podendo realizar policiamento ostensivo e comunitário e efetuar prisões em flagrante.
O texto reforça, no entanto, que as guardas não terão poder de investigação e não poderão substituir as polícias.
6. Criação de corregedorias e ouvidorias
A PEC exige que todas as forças de segurança tenham corregedorias autônomas para investigar irregularidades internas. As guardas municipais deverão contar também com ouvidorias independentes, sob fiscalização do Ministério Público.
7. Mudanças propostas pelo relator
O relator Mendonça Filho já ajustou o texto para reduzir o poder exclusivo da União e preservar competências locais. Ele também avalia incluir medidas para endurecer o combate ao crime, como:
- Restringir benefícios penais a membros de facções criminosas;
- Retomar a prisão após condenação em segunda instância, tema que pode reacender o debate no Congresso.
Tramitação da PEC da Segurança
Após a apresentação do parecer final, prevista para 4 de dezembro, a comissão especial poderá votar o texto. Em seguida, a Câmara dos Deputados deve levar a PEC ao plenário, onde precisa de 308 votos favoráveis em dois turnos.
Depois, o texto seguirá para o Senado Federal. Se aprovado nas duas Casas, será promulgado diretamente pelo Congresso, sem necessidade de sanção presidencial.
Leia também:
População denuncia que vítimas estavam em área de mata onde houve confronto; governo confirma 64 mortes, mas número pode ultrapassar 100
Grupo tinha funções bem definidas, que iam desde a liderança central e responsável pela contabilidade até os encarregados pela disciplina interna
Alguns defendem a necessidade de fortalecimento do orçamento e do controle penitenciário, outros alertam para os riscos de concentração de poder na PF
Governador destacou o contexto em que encontrou o sistema prisional e a importância do controle das unidades
