Os integrantes da extrema-direita brasileira têm vangloriado cada vez mais os Estados Unidos, o que não é nenhuma novidade. Mas, nos últimos dias, vários acontecimentos vêm mostrando, de maneira sutil, que alguns personagens têm demonstrado interesse em colocar a soberania do Brasil em risco, quase ao ponto de colocar as terras tupiniquins em jogo e transformá-las em colônia das terras do Tio Sam.

No topo da discussão está o Pix, sistema eletrônico de pagamentos criado no Brasil em 2020 e que já se tornou um dos meios mais utilizados no país, movimentando R$ 35,4 trilhões no ano passado, o que representou um crescimento de 33,6% em relação ao volume do ano anterior. Donald Trump tem sido um crítico ferrenho do método de pagamento. Segundo ele, a prática é “desleal” perante as empresas americanas, principalmente as operadoras de cartão de crédito.

Mas vamos a uma interpretação bem simples: qual pessoa iria preferir pagar por um determinado produto com os juros cobrados nas maquininhas de cartão de crédito em vez de pagar à vista, sem qualquer cobrança adicional? Hoje, os cartões de crédito e até mesmo os de débito têm funcionado dessa forma, levando os consumidores a repensarem a forma de pagamento no momento de suas compras.

Além disso, o Pix eliminou as limitações existentes nas TEDs e TEFs. A primeira demorava até uma hora para ser compensada, desde que fosse realizada dentro do horário comercial e em dia útil. A segunda até tinha um prazo menor, de cerca de dez minutos, mas com a limitação de funcionamento apenas em dias úteis. O sistema eletrônico brasileiro possibilita que o valor seja creditado instantaneamente, em qualquer horário ou dia da semana, inclusive aos sábados, domingos e feriados.

Mas, por trás disso, estamos falando de interesses políticos e até mesmo de possíveis interferências americanas nas eleições gerais deste ano.

Em carta encaminhada na última semana aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República pelo PL, realizou, ao longo de 86 páginas, uma espécie de “pedido de socorro” para tentar manter seu projeto político em vigor. No documento, o filho 01 de Jair Bolsonaro pediu que o governo de Donald Trump adiasse, por 180 dias, a aplicação de um novo tarifaço sobre os produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos.

A justificativa apresentada por Flávio seria o fato de que as sanções estariam produzindo um efeito contrário ao esperado, beneficiando politicamente Lula da Silva (PT). O petista tem usado e abusado da retórica de que as ações no campo econômico representam ataques à soberania nacional, bandeira que era constantemente defendida nos protestos de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em discursos, Lula tem atribuído aos filhos de Bolsonaro a pecha de “traidores da Pátria”.

Um adendo: será que Flávio se lembra do irmão, Eduardo Bolsonaro, que está nos Estados Unidos, agradecendo publicamente a Trump quando este anunciou as primeiras sanções contra o Brasil, elevando em 50% as tarifas sobre produtos brasileiros no ano passado? Fica o questionamento.

Na época, a situação não repercutiu bem, pois setores como o agronegócio e a indústria, tradicionalmente mais alinhados ao projeto de Bolsonaro, foram os mais prejudicados. Mas parece que Flávio Bolsonaro não compreendeu a dimensão da situação e continuou indo aos Estados Unidos pedir a bênção de Donald Trump. Ao seu lado, ainda estão Eduardo Bolsonaro e o jornalista Paulo Figueiredo.

Agora, Flávio parece correr atrás do prejuízo causado, ao mesmo tempo em que busca vender uma imagem de proximidade com Donald Trump. Aquele que teria trânsito livre na Casa Branca. Que sentaria de igual para igual com ele. Um dos trunfos utilizados para sustentar essa narrativa foi o fato de os Estados Unidos classificarem o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações criminosas logo após um encontro entre eles. Será que foi realmente influência ou mera coincidência? Há quem diga que, nesse encontro, Donald Trump sequer se levantou para recebê-los, algo que pode ser observado nas fotografias divulgadas à época.

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Flávio Bolsonaro e Donald Trump: será que são tão aliados políticos assim? | Foto: Divulgação

Flávio tenta mudar a estratégia e tem afirmado que irá aos Estados Unidos bater de frente com Donald Trump para defender o Pix. Será que vai bancar essa postura mesmo? Diante das câmeras, Flávio tem colocado a culpa no atual governo, alegando ineficiência para defender os interesses dos brasileiros. Mas, longe delas, não é difícil associar essa movimentação a um legítimo desespero.

Afinal, Flávio Bolsonaro vem sofrendo uma série de desgastes nos últimos meses. Tudo começou com a polêmica envolvendo o Banco Master e, agora, ganhou um novo capítulo com o racha dentro da própria família, após o exposed feito por Michelle Bolsonaro em um vídeo de 30 minutos.

Nesse meio-tempo, Flávio viu um público importante para seu projeto político se afastar: as mulheres, sobretudo as evangélicas. Michelle ganhou protagonismo, inclusive ameaçando deixar o Partido Liberal durante uma reunião com o presidente nacional da sigla, Valdemar Costa Neto, e até mesmo desistir de sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, ignorando completamente seu favoritismo na disputa. Os ânimos estiveram tão exaltados que lhe foi pedido um tempo para repensar a decisão, o que levou apenas à sua saída da presidência do PL Mulher. A expectativa de aliados é convencê-la a rever essa posição até meados das convenções para, enfim, manter sua candidatura.

Ainda durante o encontro, Michelle chegou a afirmar que não pretende participar da campanha política de Flávio Bolsonaro, algo que pode gerar desgaste para o senador. Afinal, como não contar com o apoio da esposa de seu pai, figura ainda venerada pelos setores mais radicais do bolsonarismo?

Para completar o que pode ser o início de sua derrocada, Flávio ainda conta, diga-se de passagem, com pessoas que pouco contribuem para sua estratégia política. A fala de Paulo Figueiredo, afirmando que mulheres votam mal, não o ajudou em absolutamente nada. E o pior: o “amigo” gravou outro vídeo reafirmando suas declarações, protagonizando mais um episódio de misoginia. Na gravação, ele chega a ensinar como o senador deveria sair da situação, alegando que suas falas são de sua inteira responsabilidade — ora, evidentemente são — e que as mulheres deveriam votar em Flávio porque ele cuida delas. Trata-se de uma estratégia de marketing bastante arriscada em um ano eleitoral que tende a ser conturbado e que ainda ataca justamente a maioria do eleitorado brasileiro, formada por mulheres.

A sensação transmitida é a de que Flávio agora luta para viabilizar seu projeto político. Não é difícil imaginar Jair Bolsonaro o deixando de lado. Como líder político, ele tende a buscar alguém minimamente competitivo para alcançar seu principal objetivo: vencer as eleições — mesmo que essa pessoa também seja alvo de ataques constantes por parte do próprio clã bolsonarista. E, se os desgastes continuarem, não é impossível que ele tome essa decisão, afinal, o candidato definitivo só será escolhido durante as convenções. Flávio, sim, corre o risco de não ser o nome do PL, e o principal responsável por isso pode ser ele próprio e a família que o projetou nacionalmente.

Ao mesmo tempo em que parece querer defender interesses coletivos, Flávio também tem negociado com Donald Trump algumas medidas para um eventual governo, caso venha a ser eleito. Isso demonstra que pretende construir uma relação de forte alinhamento com os Estados Unidos. Até aqui, essa estratégia não tem se mostrado exitosa, e ele próprio parece sentir seus efeitos, mas tampouco tem buscado um caminho muito diferente para tentar reverter o cenário. Vamos aguardar os próximos capítulos.

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