Há uma tradição no Brasil: nas campanhas majoritárias, os eleitores costumam prestar atenção apenas em dois candidatos — aqueles que estão polarizados. Foi assim em 1989 (Fernando Collor e Lula da Silva), 1994 (Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva), 1998 (Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva), 2002 (Lula da Silva e José Serra), 2006 (Lula da Silva e Geraldo Alckmin), 2010 (Dilma Rousseff e José Serra), 2014 (Dilma Rousseff e Aécio Neves), 2018 (Jair Bolsonaro e Fernando Haddad) e 2022 (Jair Bolsonaro e Lula da Silva).

As disputas se deram entre esquerda e direita e entre esquerda e centro-esquerda. A centro-esquerda (FHC) ganhou duas eleições, a esquerda faturou cinco (Lula da Silva e Dilma Rousseff) e a direita conquistou duas vitórias (Fernando Collor e Jair Bolsonaro).

Diz-se que a história às vezes se repete, como tragédia ou farsa. Mas o quadro  de 2026 — a eleição será disputada daqui a quatro meses — pode se configurar de maneira diversa.

Quatro meses é um tempo razoável e, por isso, muitas coisas podem mudar. Porém, o quadro de hoje sugere ao menos duas coisas.

Primeiro, o presidente Lula da Silva pode ser eleito no primeiro turno. Sobretudo se pré-candidatos como Ronaldo Caiado, do PSD, e Romeu Zema, do Novo, não subirem.

Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro fotos reproduções
Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro: o segundo deu dinheiro; e o primeiro deu o quê? | Fotos: Reproduções

Segundo, o pré-candidato da extrema direita — tentando se deslocar para a direita —, Flávio Bolsonaro caiu nas pesquisas de intenção de voto e tende a cair um pouco mais.

Flávio Bolsonaro não tem mais discurso

Flávio Bolsonaro apresentava-se aos eleitores como combatente da corrupção e desvinculado do Banco Master & Daniel Vorcaro. A realidade mandou um recado diferente de sua retórica. O senador pediu dinheiro para Daniel Vorcaro para fazer um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro, e talvez para outras coisas.

Até agora, Flávio Bolsonaro não esclareceu o que ofereceu para Daniel Vorcaro em troca de 61 milhões de reais.

O fato é que, do ponto de vista do eleitor, o não engajado — a maioria —, Flávio Bolsonaro ficou carimbado como “o jovem de práticas velhas”. Ao menos, no momento, o filho de Jair Bolsonaro não tem mais discurso para enfrentar Lula da Silva.

A rigor, Flávio Bolsonaro não tem experiência administrativa e não tem um projeto para o Brasil. Aparecia colado em Lula da Silva porque era visto, pelos eleitores, como o contraponto capaz de derrotar o petista-chefe. Era, e ainda é, o principal anti-Lula da Silva.

Sem o discurso do “novo” e do combate à corrupção, o que Flávio Bolsonaro poderá colocar no lugar? Pelo fato de não ter experiência como gestor, e não ser um político de muitas luzes, não há mais nada a apresentar. O postulante da extrema direita está sem discurso.

Uma saída? Readquirir a confiança dos eleitores é muito difícil. Mas vale ressaltar que, em 2022, Lula da Silva, enfrentando Jair Bolsonaro, caiu, mais uma vez, nas graças dos eleitores. Pelo menos de parte substantiva deles — 60 milhões deles.

Há outro caminho para voltar à tona, depois do afogamento? Só se Lula da Silva sair chamuscado no caso do INSS, ou seja, se seu filho Lulinha aparecer no centro, ou mesmo na periferia, do escândalo. Aí iguala tudo? É provável.

lula
Lula da Silva: o petista pode ser eleito no primeiro turno, se Flávio Bolsonaro derreter e não surgir outra segunda via eleitoralmente consistente | Foto: Divulgação

A hora e a vez de Caiado e Zema

Ressalve-se que, mesmo em queda, Flávio Bolsonaro ainda é um postulante forte. Porque tem o apoio dos eleitores bolsonaristas e de parte dos eleitores da direita e do centro não necessariamente bolsonarista. Para falar em enfraquecimento substancial é preciso esperar os próximos 15 dias ou até um mês.

Entretanto, a “queda” de Flávio Bolsonaro pode acabar gerando algo positivo. Os eleitores podem começar a observar com mais atenção Ronaldo Caiado e Romeu Zema, ex-governadores de Goiás e de Minas Gerais.

Flávio Bolsonaro aparece em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto não porque é superior a Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Ele só está sendo mais observado do que os políticos de Goiás e Minas.

Dado ser filho de Jair Bolsonaro — há muitos eleitores que não conseguem dissociá-los —, Flávio Bolsonaro acaba sendo mais conhecido em todo o Brasil. Sobretudo, é visto como aquele que tem — ou teria — condições de derrotar Lula da Silva. É, por isso, a aposta dos que querem arrancar o petista-chefe do poder.

A partir de agora, com a imagem de Flávio Bolsonaro corroída pelo seu envolvimento com Daniel Vorcaro — e novas denúncias tendem a surgir; comenta-se que o banqueiro estaria reticente a se abrir por “medo” dos Bolsonaros e de Ciro Nogueira, mas agora poderá se abrir —, Ronaldo Caiado e Romeu Zema poderão se tornar competitivos.

Ronaldo Caiado e Romeu Zema são políticos e gestores. Os dois poderão mostrar ao país, na medida em que começarem a ser observados pelos eleitores — se estes realmente deixarem Flávio Bolsonaro de lado —, o que fizeram em Goiás e Minas. Além de exibirem o que poderão fazer pelo país.

Eleitos e reeleitos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema provaram, em sete anos e três meses, que são gestores eficientes. Os leitores de seus Estados deram-lhes votos de confiança duas vezes.

Então, se crescerem — na verdade, um deles poderá crescer, e o outro tende a ficar para trás —, Lula da Silva poderá ganhar um adversário à sua altura. Porque os três, discordando-se ou não deles, têm serviços prestados à coletividade.

A disputa não será mais entre o que Lula da Silva fez, em 12 anos, e a mera retórica de Flávio Bolsonaro, que, até agora, nada fez de substancial pelo Rio de Janeiro e tampouco pelo país.

A disputa será entre experiências administrativas e não apenas tendo por base discursos otimistas e, por vezes, irrealistas. O petista-chefe, se um novo postulante da direita crescer, terá um adversário à sua altura — e não mais um Fernando Collor reinventado pelo marketing.

Diz-se que não há espaço para a terceira via. Porém, quando a segunda via perde força, como é o caso de Flávio Bolsonaro, há a possibilidade de candidatos como Ronaldo Caiado e Romeu Zema se tornarem a segunda via.

Segurança é diferencial de Caiado

Do ponto de vista de gestão, Ronaldo Caiado e Romeu Zema se equivalem, até certo ponto. Mas o goiano tem mais experiência política, capacidade de articulação. Por isso pode acabar herdando o voto da direita que, desencantada com os Bolsonaros — dados o carimbo de corrupção, o cinismo e a desfaçatez —, tende a buscar um novo candidato.

Falta a Romeu Zema traquejo político, tanto que, assim que saiu o escândalo de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, apostou que seria “positivo” desvincular-se, de imediato, dos Bolsonaros. Deu-se mal. Seu marqueteiro errou. Uma coisa é admitir que o malfeito precisa ser apurado — outra bem diferente é detonar quem, ainda que em queda, tem voto cristalizado.

Talvez por ser empresário, Romeu Zema comporta-se mais ou menos como o presidente da Argentina, Javier Milei.

O “libertário”, ou anarco-capitalista, Javier Milei cortou investimentos sociais e a miséria cresceu nas ruas da Argentina. O resultado é que sua popularidade decaiu. As denúncias de corrupção envolvendo sua irmã e o chefe de gabinete começam a escandalizar a classe média do país, já escaldada com os malfeitos do grupo da ex-presidente Cristina Kirschner.

Romeu Zema, até onde se sabe, não é corrupto. Mas não se interessa pelo social, ao menos não em larga medida. A segurança pública, nos seus dois governos, também não equivale à de Goiás.

Ronaldo Caiado criou um Estado do bem-estar social, de caráter inclusivo, em Goiás. O programa Pé de Meia, do governo Lula da Silva, é inspirado num programa do goiano. Libera-se dinheiro para estudantes, o que contribuiu para reduzir a evasão e melhorou o desempenho escolar. Frise-se que o anapolino é um político de decência comprovada.

A segurança pública de Goiás melhorou no governo de Ronaldo Caiado. No Estado, dados um gestor e uma polícia proativos, o crime organizado foi contido. É um exemplo para o país. Não se precisa buscar o exemplo de El Salvador, um país que, sendo menor do que Sergipe, não pode, ao contrário do que pensa Flávio Bolsonaro, inspirar o Brasil.

Espera-se, portanto, que o Brasil descubra outros Brasis, representados por Ronaldo Caiado e Romeu Zema, políticos que, nos debates com Lula da Silva, não farão feio. Eles têm o que dizer. Administraram dois Estados (Goiás é maior do que Coreia do Sul, Israel, Portugal e Suíça juntos) e, por isso, sabem como gerir um país. Já Flávio Bolsonaro, quando acabaram as rachadinhas — dinheiro público da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro —, não deu conta de gerir uma franquia de chocolate da Kopenhagen.

Então, o caso Flavio Bolsonaro & Daniel Vorcaro pode ter sido positivo para o país. Porque poderá evitar que o Brasil, seu governo, caia nas mãos de um político tão inexperiente quanto, pelo visto, inescrupuloso.